Exposição coletiva “Rasura”
Exhibition
- Nome: Exposição coletiva “Rasura”
- Abertura: 03 de fevereiro 2026
- Visitação: até 14 de março 2026
Local
- Local: Nara Roesler
- Online Event: No
- Endereço: Rua Redentor, 241, Ipanema – Rio de Janeiro, RJ
Rasura
O curador Victor Gorgulho apresenta um conjunto de 23 obras de 17 artistas que abordam, de maneira ampliada, a ideia de rasura. Os trabalhos de diferentes pesquisas, materiais e suportes são dos artistas Antonio Dias (1944-2018), Brígida Baltar (1959-2022), Bruno Dunley (1984), Cao Guimarães (1965), Carlito Carvalhosa (1961-2021), Cristina Canale (1961), Daniel Senise (1955), Fabio Miguez (1962), Karin Lambrecht (1957), Manoela Medeiros (1991), Maria Klabin(1978), Marcos Chaves (1961) e Raul Mourão (1967). A mostra inclui ainda trabalhos dos artistas convidados Cipriano (1981), Erick Peres (1994), Lucia Koranyi (1982) e Marlon Amaro (1987).
Nara Roesler tem o prazer de convidar para abertura, em 3 de fevereiro de 2026, às 18h, da exposição “Rasura”, com curadoria de Victor Gorgulho, que selecionou 23 trabalhos de artistas representados pela galeria, além de quatro convidados. Apagamentos, fragmentação, esconder, velar, destruir, subtrair e adicionar estão presentes na exposição, mas também “a rasura como um gesto de revelação, de concepção, de criação artística”, comenta o curador.A montagem privilegia aproximações entre os trabalhos, de modo a destacar a ideia da rasura nas pinturas com materiais e suportes variados,e ainda esculturas, vídeos, objetos, fotografias, que ocupam os dois andares da galeria Nara Roesler Rio de Janeiro.
Victor Gorgulho conta no texto que acompanha a exposição que entre os anos 1950 e 1953 o artista norte-americano Robert Rauschenberg (1925 2008) “produziu uma série de trabalhos que investigavam a possibilidade de a criação artística ser concebida através não da adição da matéria (da tinta e afins), mas sim a partir de seu apagamento”. Rauschenberg acabou decidindo procurar Willem de Kooning (1904–1997),“artista por quem nutria enorme respeito e admiração, pedindo-lhe um de seus desenhos, deixando de Kooning a par de que sua obra seria apagada – rasurada, afinal”. Rauschenberg,junto com o também artista Jasper Johns (1930), criou então “Erased de Kooning Drawing [Desenho Apagado de de Kooning]”, em 1953. “A rasura tornava-se, ali, parte do processo e do conceito da obra de arte”, afirma Gorgulho.
“O trabalho curatorial aqui é pedir licença com respeito à galeria, aos artistas, para poder também colocá-los em conversa, porque desse modo eles ganham dimensões possíveis da rasura”, explica Gorgulho. “A rasura não tem é apenas a ideia do lápis preto rabiscando, apagando. Nesta mostra ela assume um lugar mais amplo e que muitas vezes pode ser solar, aberto, leve. A rasura não vem só de uma intensidade do gesto, do plano, do bastão de óleo preto que rabisca, escreve”. “No campo da arte”, continua o curador”, a rasura assume, de fato, uma miríade de significados e possibilidades, desde então, para muito além do seu sentido estrito. A rasura é conceito, fragmentação, diluição, destruição, subtração, escavação, ficcionalização e ainda mais. Gestos tão corporais quanto mentais”. Na exposição, estão reunidas obras distintas, pensamentos e ideias diversas, “corpos velados, camadas de tinta a sedimentarem outras já gastas, superfícies rasuradas, pinturas e desenhos que operam pela retirada e não pela inclusão, um vídeo cuja montagem sugere a velocidade irrepreensível de seu conteúdo visual e mais”. “Tudo vira obra, trabalho, labor, da cuca e da mão, expondo as fraturas (e rasuras), que teimam em saltar da pele que encobre tudo o que aqui se vê”.
OBRAS E ARTISTAS NO PERCURSO DA EXPOSIÇÃO – Comentários de Theo Monteiro, pesquisador de Nara Roesler
Primeiro Andar
• ANTONIO DIAS (1944, Campina Grande – 2018, Rio de Janeiro)
Antonio Dias, nos anos 1960, era muito influenciado pela pop art – quadrinhos, cultura de massa. Depois, ele vai se tornar um artista conceitual, e passa a trabalhar com elementos muito mais ligados à linguagem. No final dos anos 1970, começo dos anos 1980, ele vai retomar a pintura, mas por uma outra chave, e passa a investigar também a relação entre diferentes tipos de substância, um lado seu alquimista, e começa a usar folha de ouro, pigmento a ser feito com base de cobre, elementos com uma aparência mais metálica, com cobre, que é um grande condutor de eletricidade. Há uma reação química, que a ele interessa especialmente por ser uma circulação de energia, que provoca tanto uma discussão científica quanto simbólica. Em “Saru (Saru-San)” não tem pigmento metálico, mas sim uma intencional imitação da chapa de cobre, tanto a superfície marrom como a verde – cor que o cobre adquire quando oxida. A área de cor vermelha une este circuito, e o rosto no meio dessa superfície altera sua neutralidade, e ela fica meio rugosa. Uma ideia de rasura. Na obra de 1985, há uma caveirinha que aparece em vários trabalhos dos anos 1960 de Antonio Dias. Esses desenhos se relacionam com a ideia de rasura, meio cartunesca, com alguns elementos meio sexuais. E têm também uma aparência de esboço,com formas regulares que vão se encaixando.
• CARLITO CARVALHOSA (1961-2021, São Paulo)
Carlito Carvalhosa começa sua trajetória nos anos 1980, quando a pintura volta com força total, mas não mais como antes se fazia. Para o Carlito, nenhuma substância é completamente neutra. Cada uma tem um papel e elas frequentemente interagem entre si. Então, se para muitos artistas a tela é um suporte neutro onde ele simplesmente vai criar composições, para o Carlito não. No caso desse trabalho é um espelho, tão importante quanto qualquer outro elemento, uma superfície de vidro, que por si só não é perceptível aos nossos olhos, porque automaticamente vemos o reflexo. Carlito intervém sobre esta superfície espelhada e vai colocar tanto essa resina azul, que escorre, uma substância com aspecto liquefeito, como tinta em spray, muito usada em pichação, que também não deixa de ser uma forma de rasura. Rasura é um gesto agressivo, e entra como uma certa poluição, e Carlito brinca com essa ideia, porque ospray é uma tinta líquida, volátil, meio gasosa.Quando olhamos para esse trabalho, percebemos tanto a característica do espelho, seu lado reflexivo, quanto o lado mais espesso da resina. Carlito também é um pouco alquimista.
• MARCOS CHAVES (1961, Rio de Janeiro)
Marcos Chaves usou um pirografo pra gravar em um pedaço de veludo vermelho escuro o verso “Our love will grow vaster than empires”, “O amor vai crescer mais que os impérios”, do poeta inglês Andrew Marvell (1621–1678), e prendeu o tecido com um canivete, também vermelho, fazendo este corte, esta rasura na superfície. Embora não seja um pintor no sentido estrito do termo, ele trabalhou com Antonio Dias na década de 1980, na Alemanha, e conhece muito a pintura. Ele juntou, como em outros trabalhos, objetos da mesma cor, no caso, o vermelho, que como afirmou o artista Anish Kapoor (1954) é a cor mais humana que existe, porque evoca todo tipo de sentimento – está associada às paixões, ao poder, ao sangue, ao desejo, não sendo jamais uma cor neutra. O vermelho é uma cor que nos acende. Esta rasura que ele faz aqui traz um vermelho mais luminoso, diferente do resto, como que sangrando. O desejo por poder desmedido é muito humano também, já que não é eterno, porque nós, humanos, não somos eternos. O poder, ele nos é emprestado. Ele pode ser perdido a qualquer momento. Assim como os nossos sentimentos. Não temos muito controle sobre eles. Depende de muitas forças externas e internas também, sobre as quais a gente não governa. E esta rasura entra rompendo. Uma declaração de amor, forte, que evoca uma imagem muito poderosa.
• BRUNO DUNLEY (1984, Petrópolis; vive e trabalha em São Paulo)
Bruno Dunley é um artista que investiga muito as possibilidades dos pigmentos, dos materiais. E por causa disso ele fundou, em 2020, a fábrica de tintas a óleo artesanais Joules & Joules, junto com seu amigo e também artista Rafael Carneiro, ampliando seu universo de pensar novas soluções plásticas e pictóricas para seus trabalhos. Esta obra de 2022 parece evocar uma carta de baralho, um ás. Mas estamos falando de pintura, que pode imitar a superfície, e também trair um pouco essa natureza. E fica esse lado caligráfico interessante que Bruno Dunley explora, ao usar uma espécie de tinta pastel, criando essa textura mais rugosa, uma linha um pouco mais sinuosa, mais torta, sugerindo esta ideia curatorial de rasura. Em geral, a rasura vem para cortar, interromper. Este trabalho evoca uma rusticidade, que parece agredir a superfície, que não é neutra, é um pouquinho aquarelada, em rupturas de tom de cor.
• MARLON AMARO (1987, Niterói)
As pinturas de Marlon Amaro têm uma atmosfera urbana, cores muito saturadas, elementos do grafite, da pichação, da arte de rua. Nos trabalhos selecionados para a exposição, isso fica muito evidente. Tem uma pincelada por trás, e ele vai colocando umas notas de amarelo, e o título do trabalho é “Star”. Vemos algumas estrelas, num céu meio cósmico, mas aí ele faz uma grande rasura, uma linha tortuosa para formar a palavra “Star”, rabiscada, que intervém de um jeito completamente radical pra desestabilizar a superfície meio aquarelada. Nos remete aos códigos de pichação, de rabisco que encontramos nos muros da cidade. “Erro” tem uma pincelada mais tortuosa, e Marlon vai agrupando texturas diferentes, um acúmulo de camadas, e entra letra ali no meio, um componente mais caótico. Dá pra se pensar num diálogo das obras dele também com o Cy Twombly (1928-2011), que traz essa ideia da rasura.
• KARIN LAMBRECHT (1957, Porto Alegre; vive e trabalha em Broadstairs, Reino Unido)
Karin Lambrecht também é uma artista que está interessada em entender diferentes materiais, em combinar materiais e as suas propriedades, e ela traz a escrita. Karen faz uma pintura muito gestual, e seus trabalhos mais recentes têm um aspecto mais calmo, mais plástico. Isso tem muito a ver com o momento em que ela está vivendo, morando há quase nove anos na costa sudeste da Inglaterra, em Broadstairs, na Ilha de Thanet. Ela diariamente convive com a paisagem em que vê, no fim do dia, a luz filtrada pelas nuvens, com olhar pra esse céu, de esperar, e ver, de repente, esse elemento mais primordial, a luz. Ela comenta que fará 70 anos em 2027, e está em um momento mais tranquilo mesmo. Nesta pintura, a rasura entra com uma palavra simbólica, que parece evocar algo. Ela coloca uma pequena cruz, presente em seus trabalhos, e faz com ela uma incisão.A rasura é um elemento meio externo que “bagunça” algo que a princípio deveria ser ordenado. E por cima da cruzinha ela faz também um rabisco de lápis. A cruz é um símbolo que explica a origem de muita coisa. Muitas coisas, boas e ruins, foram feitas em nome da cruz. Karin se interessa por esses símbolos que têm algo de primordial, que evocam forças maiores. Ela se interessa por filosofia, pelas questões espirituais, e pelo poder e a força que os símbolos carregam. E a cruz também é sinal de positivo,usada na matemática, na química.
• MARIA KLABIN (1978, Rio de Janeiro)
“Primavera” não é um trabalho que evoca a superfície neutra, é feito sobre papel vegetal, e se consegue ver as diferentes camadas, os diferentes motivos, em que a artista vai aplicando diferentes camadas de cor, nessa forma meio liquefeita. Ela tira a superfície desse lugar isento, neutro. Victor Gorgulho comenta: “Jamais pensaria em rasura vendo a obra de Maria Klabin, mas perto do Espelho do Carlito ela ganha uma dimensão de diluição, de um gesto que parece quase rasurado, rabiscado, como este trabalho dele”.
• LUCIA KORANYI (1982, Rio de Janeiro; vive entre o Rio de Janeiro e a Serra da Mantiqueira)
Lucia Koranyi “tem décadas de trabalho com estamparia no Rio, e colaborou com marcas como Farm e Andrea Marques”, conta Victor Gorgulho. “Ela se tornou uma das assistentes de Adriana Varejão, e já há um tempo tem uma produção autoral de pintura muito ligada à paisagem, mas que, pelo processo, pela pincelada, pelo gesto, vai se tornando meio abstrata, meio diluída, meio derretida, meio rasurada de alguma forma”. “A rasura pode aparecer também como um gesto da pintura, mesmo que ele não tenha sido intencional”.
• DANIEL SENISE (1955, Rio de Janeiro; vive e trabalha entre Rio de Janeiro e São Paulo)
O trabalho de Daniel Senise é interessante para pensarmos a ideia de rasura, porque as superfícies dele nunca são neutras: são sempre gastas, envelhecidas, com uma ideia de coisa feita por cima de outra. Têm essa atmosfera fantasmática, com espaços ou elementos vazios, sem a presença de pessoas, e as imagens estão sempre desaparecendo. Senise faz o que chama de capturas. Ele pega um tecido, coloca nele uma mistura de água e cola, e pressiona sobre um chão ou uma parede. E então ele arranca isso da parede, vindo junto alguns pedaços da própria parede. Ele vai combinando diferentes pedaços de cada impressão e vai colando.Em “Verônica” vemos uma imagem amplamente representada na história da arte, com a cena de Verônica que enxuga com um pano branco o rosto ensanguentado e suado de Cristo,a caminho do Calvário, com uma coroa de espinhos na cabeça, e em um milagre a imagem fica estampada no tecido, se transformando em uma relíquia sagrada. Senise neste trabalho reproduz a imagem da pintura de El Greco (1541-1614), como se fosse a terceira captura da imagem retida por Verônica.
Espaço da Claraboia
• FABIO MIGUEZ (1962, São Paulo)
Fábio Miguez tem uma geometria muito precisa, muito perfeita. Nos últimos 16 anos ele vem se debruçando sobre a linguagem geométrica construtiva, num sentido histórico mais amplo.Ele tem se dedicado a releituras feitas a partir de fragmentos de obras de mestres pré-renascentistas e renascentistas como Giotto (1267-1337), Fra Angelico (1395-1455), e Piero della Francesca(1415-1492), reproduzindo os afrescos e pinturas de cunho religioso sem suas figuras ou personagens, mantendo apenas as estruturas arquitetônicas complexas, dando assim protagonismo ao espaço, à geometria presente. Esses primeiros pintores do Renascimento começam a investigar perspectiva, profundidade, como representar um meio tridimensional em um suporte que é bidimensional, e fazem um uso extremamente sofisticado da geometria. Com este trabalho, Miguez propõe um diálogo com os nossos artistas que lidaram com formas puras e foram construindo, como Volpi (1896- 1988), Aluísio Carvão (1920-2001), Willis de Castro(1926-1988) e Hélio Oiticica(1937-1980), entre outros. Fábio Miguez começou sua trajetória junto com Carlito Carvalhosa. A pintura do Miguez tem uma aparência meio áspera, nos lembrando dos afrescos. Vemos um material meio rochoso, uma textura muito específica. Nos parece um pedacinho de parede. Ele mistura óleo com cera de abelha, dando essa consistência. Essas superfícies parecem ter algo meio gasto, não são neutras, e daí vem a ideia da rasura. Parece algo que sofreu a passagem do tempo. Aqui a rasura talvez seja o próprio tempo, que vai deixando essa imagem com uma aparência meio gasta.
• BRÍGIDA BALTAR (1959-2022, Rio de Janeiro)
A artista discute a ideia de casa, domesticidade, abrigo, e nesta obra uma pessoa abre uma janela na parede. A rasura é também uma quebra, uma incisão, uma demolição. Brígida é uma artista que vai usar as mais diversas linguagens em sua poética. Ela tem essa ideia de casa. A ideia de abrigo, uma espécie de invólucro. Este trabalho é da década de 1990, eBrígida usava como base de muitos trabalhos os tijolinhos que estavam presentes na casa dela. Ela começou escavando a própria casa, a ideia de “o corpo é a casa, e a casa com o corpo dentro”. Quando ela deixou essa casa ela levou muitos desses tijolos e continuou trabalhando com eles até praticamente o final da vida. E aqui a rasura entra no sentido de alguém abrir uma janela na parede, marretando para abrir uma passagem, um buraco, fazer uma abertura. A rasura também é isso, uma quebra, uma incisão, algo que rompe com alguma coisa que a princípio deveria ser harmônica.
• CAO GUIMARÃES (1965, Belo Horizonte; vive e trabalha em Montevidéu)/ CAROLINA CORDEIRO (1983, Belo Horizonte; vive e trabalha em São Paulo)
Cao Guimarães trabalha com obras audiovisuais expandidas, e faz também um inventário de momentos variados e visualmente marcantes da vida cotidiana. A prática fotográfica de Guimarães também parte de premissas documentais daquilo que nos parece habitual. Em “Campo cego # 05”, Cao Guimarães trabalhou com a artista Carolina Cordeiro, cobrindo com barro uma placa de sinalização de trânsito, onde vemos rastros das palavras.
Segundo Andar
• MANOELA MEDEIROS (1991, Rio de Janeiro; vive e trabalha entre Rio de Janeiro e Paris)
Manoela Medeiros em sua prática interroga os meios artísticos além de seus formatos convencionais, onde pinturas e instalações in situ servem para explorar as relações entre espaço, tempo e a corporeidade da arte e do espectador. Em uma perspectiva ampliada do pictórico, a artista utiliza recursos da escultura, da performance e da instalação. Seu trabalho comporta procedimentos arqueológicos, tornando visível aquilo que muitas vezes subjaz, assim como se nutre da ideia de ruína, um índice espacial da passagem do tempo. Ela opera entre a construção e a destruição, mostrando sua complementaridade, mais do que seu antagonismo. “Manoela cria furos, buracos, destrói, abre caminho, espaço, faz buracos, frestas”, comenta Gorgulho.
• CRISTINA CANALE (1961, Rio de Janeiro; vive e trabalha em Berlim)
Cristina Canale também é uma artista que vem desse contexto da década de 1980. É interessante para pensarmos a ideia de rasura. Nos últimos anos, os trabalhos dela têm sido o que ela chama de antirretratos, porque a função do retrato, originalmente, é identificar alguém, eternizar um rosto em um determinado momento da vida, um congelamento de tempo. Especialmente desde os anos 1990, Canale começa a fazer uma revisitação de gêneros diferentes da pintura: natureza morta, paisagem, retrato. Ao mesmo tempo, ela também tem trabalhos abstratos, e vai sempre vai misturando, “bagunçando” um pouco essas noções. Ela tem usado cores muito claras, muito precisas, que saltam aos nossos olhos. Em “Cara metade”, Cristina Canale esboça um rosto, mas tensiona no limite da representação. No meio, ela coloca uma gota, uma paisagem, um elemento estranho. É muito interessante a maneira como ela faz isso, porque vai mudando a natureza da superfície. Parece que há uma coisa colocada sobre a outra, e frequentemente ela aplica uma colagem, corta um pedaço de tela e cola, ou um pedaço de papel de embrulho, e vai tirando da superfície esse lado neutro, e colocando quebras ali no meio, interrupções meio abruptas, como neste trabalho. Ele parece ser tridimensional, e de repente se percebe que é bidimensional. Canale faz esta forma meio irregular, e quebra um pouco, tira um pouco essa ideia de retrato. Por isso ela chama de antirretrato, embora não seja, e sim um pretexto para ela investigar a pintura, que sempre está representando imitando outras superfícies. Cristina Canale sempre vai deixando figuração e abstração no meio do limite e vai quebrando essa aparente unidade. Quando olhamos seu trabalho parece ser tudo muito harmônico, mas ela vai mudando o gesto, a natureza dos elementos que está representando. Victor Gorgulho destaca: “Os retratos de Cristina Canale não permitem que ninguém seja identificado. No campo da ideia de rasura, há este velamento, pelo esconder o rosto. Esconder é também rasurar, é também apagar”.
• ERICK PERES (1994, Porto Alegre; vive e trabalha em São Paulo)
Erick Peres cresceu em um bairro pobre de Porto Alegre, e seu trabalho vai investigar muitas dessas vivências. Ele trabalha muito com imagem de arquivo, com fotografias que evocam esse lugar de onde ele veio. Esta imagem em sua obra na exposição é forte. Ele intervém sobre essa fotografia, rasura, deixando uma área meio gasta, com zonas de branco. Vemos essa mãe com a criança, que parecem olhar para algo que não está lá. Talvez esperando algo, uns olhares meio perdidos. Uma imagem que sugere uma ausência. Fica uma coisa meio fantasmagórica, porqueé uma imagem, talvez uma figura paterna, que na verdade não está lá. Em bairros mais pobres, é imensa a quantidade de crianças que cresceram sem pai. A quantidade de mães-solos que existem por aí é uma realidade não só na zona leste de Porto Alegre, mas de muitos lugares.Aqui a rasura é um evocativo de uma ausência. Victor Gorgulho reitera que “a rasura, no caso deErick Peres, tem uma dimensão doméstica, familiar”.
• CIPRIANO (1981, Petrópolis)
Victor Gorgulho comenta que considera Cipriano “o Cy Twombly do candomblé, da umbanda”. “Seu trabalho é bem grande, preto, em que dá pra ver perfeitamente uma escrita sobre a qual é adicionada uma matéria de tinta e de outras coisas, e ele escreve por cima, vira um rabisco. A escrita, a linguagem, se tornam completamente abstrata. A escrita, por exemplo ganha uma dimensão abstrata.O trabalho dele define muito o pensamento da exposição”, diz. “As obras de Cipriano saúdam e celebram suas origens – as de Petrópolis e as vindas do outro lado do oceano Atlântico. Descolonizando a mente e promovendo a arte afrodescendente, escrevendo histórias que revisitam os antepassados por intermédio da criação artística do invisível no visível.Seus trabalhos são produzidos com o pó xadrez preto, a cal, o carvão vegetal e a pemba, carregados de simbolismos dos terreiros. São cartas e feitiços, oferendas e alegorias o que presenciamos nas instalações pictóricas do artista. Apresentando saberes e conhecimentos ancestrais que o formaram como ser vivente em movimento, o artista ocupa e afeta o espaço, promovendo territórios sensíveis à presencialidade negra” (Marcelo Campos e Filipe Graciano, para a exposição “Um oceano para lavar as mãos”,Centro Cultural Sesc Quitandinha, 2023)
• RAUL MOURÃO (1967, Rio de Janeiro; vive e trabalha entre Rio de Janeiro e Nova York, EUA) /TCHACA
“Raul Mourão, com o vídeo ‘Relixo’, nos faz expandir a ideia de rasura. No vídeo a rasura está na fragmentação, na montagem do vídeo, que apresenta várias imagens em movimento, vários micromomentos, cenas, vídeos, entre Nova York, Rio, com cortes que dão um resultado frenético. É uma escrita audiovisual, é uma rasura, um rabisco audiovisual. É tão frenético que a pessoa sai fragmentada ao assistir um minuto do vídeo. O vídeo te leva para vários lugares, apaga, volta, vem, somem as informações contidas nas imagens, elas vêm de uma maneira muito precária, pois não dá tempo de entender e já está em outra imagem. O lidar com as imagens de um jeito rasurado, fragmentado, acelerado, como o próprio artista”, afirma Victor Gorgulho.
SOBRE VICTOR GORGULHO
Curador, pesquisador, graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ, e mestrando em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Participou da curadoria, junto com Adriana Varejão e Helena Freitas, da exposição panorâmica “Entre os vossos dentes”, que inaugurou o novo prédio contemporâneo da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, de abril a setembro de 2025, com trabalhos das artistas Adriana Varejão e Paula Rego. Em 2024, junto com a crítica e curadora Luisa Duarte, foi coorganizador do volume cinco da série “Pacto Visual” (Editora ID Cultural). Também junto com a curadora, foi organizou “No tremor do mundo – Ensaios e entrevistas à luz da pandemia” (Editora Cobogó, 2020). Foi curador-chefe do Instituto Inclusartiz, fundado e presido por Frances Reynolds, com sede física no Rio de Janeiro, e atua ainda hoje em projetos concebidos com instituições parceiras do Instituto, como o TBA-21 Academy, braço contemporâneo do Museu Thyssen-Bornemisza, em Madri. Curou exposições individuais e escreveu ensaios curatoriais para exposições e publicações de artistas como Laura Lima, Dudi Maia Rosa, Rodrigo Torres, Raul Mourão, Carlos Vergara, Anderson Borba, Cristina Canale, Guga Ferraz, dentre outros. Curador convidado do projeto Pivô Satélite, junto dos curadores Diane Lima e Raphael Fonseca, cujos projetos ocuparam a plataforma digital do Pivô Arte e Pesquisa (São Paulo), durante os anos de 2020 e 2021, com trabalhos inéditos de jovens artistas brasileiros, tais como Rafael BQueer, Davi Pontes e Wallace Ferreira, Anarca Filmes e Diambe. Entre 2019 e 2022 foi o curador do MIRA, programa de videoarte da feira ArtRio. Integrou o corpo curatorial da Despina, centro de pesquisa e residência artística no Rio de Janeiro, sob a direção de Consuelo Bassanesi. No Cineclube do espaço, promoveu a exibição de filmes e conversas com artistas como Cristiano Lenhardt, DISTRUKTUR e Karim Aïnouz. Curou as exposições “LABOR” (Om-Art, Rio de Janeiro, 2019/2020), “Vivemos na melhor cidade da América do Sul”, junto com Bernardo José de Souza (Átomos, Rio de Janeiro, 2016 e Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, 2017); “O terceiro mundo pede a bênção e vai dormir” (Despina, Rio de Janeiro, 2017); “Eu sempre sonhei com um incêndio no museu – Laura Lima & Luiz Roque”, no Teatro de Marionetes Carlos Werneck (Rio de Janeiro, 2018); “Perdona que no te crea” (Carpintaria, Rio de Janeiro, 2019). Cocurador, com Keyna Eleison, da exposição “Escrito no Corpo” (Carpintaria, Rio de Janeiro, 2020; Tanya Bonakdar Gallery, 2021), “Os Monstros de Babaloo” (Fortes D'Aloia e Gabriel – Galpão, 2021). Como jornalista, foi editor assistente de cultura do “Jornal do Brasil“(2014-2017) e colaborou com veículos como o “El País” (BR/ES), “Terremoto” e “Folha de São Paulo”.
SOBRE NARA ROESLER
Nara Roesler é uma das principais galerias de arte contemporânea do Brasil, representa artistas brasileiros e latino-americanos influentes da década de 1950, além de importantes artistas estabelecidos e em início de carreira que dialogam com as tendências inauguradas por essas figuras históricas. Fundada em 1989 por Nara Roesler, a galeria fomenta a inovação curatorial consistentemente, sempre mantendo os mais altos padrões de qualidade em suas produções artísticas. Para tanto, desenvolveu um programa de exposições seleto e rigoroso, em estreita colaboração com seus artistas; implantou e manteve o programa Roesler Hotel, uma plataforma de projetos curatoriais; e apoiou seus artistas continuamente, para além do espaço da galeria, trabalhando em parceria com instituições e curadores em exposições externas. A galeria duplicou seu espaço expositivo em São Paulo em 2012 e inaugurou novos espaços no Rio de Janeiro, em 2014, e em Nova York, em 2015, dando continuidade à sua missão de proporcionar a melhor plataforma possível para que seus artistas possam expor seus trabalhos.
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Exposição “Rasura”
Abertura: 3 de fevereiro de 2026, às 18h
Até: 14 de março de 2026
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Nara Roesler
Rua Redentor, 241, Ipanema, Rio de Janeiro, CEP 22421-030
Monday to Friday, from 10am to 6pm
Sábado, das 11h às 15h
Telefone: 21 3591 0052