IMS Paulista apresenta exposição sobre a trajetória e o legado de Laudelina de Campos Mello (1904-1991), pioneira na luta pelos direitos das trabalhadoras domésticas no Brasil
Com abertura em 16 de maio, a mostra aborda diversas facetas da vida e do pensamento de Laudelina. A seleção reúne fotografias, periódicos, vídeos e material documental. Traz ainda obras de cerca de 40 artistas, de diferentes gerações e regiões do país, que dialogam com a história de Laudelina.
Após passar pelo IMS Poços, a exposição Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello abre no IMS Paulista (Av. Paulista, 2424), no dia 16 de maio (sábado). Entrelaçando diferentes linguagens, a mostra apresenta a história de Laudelina de Campos Mello (1904-1991), liderança fundamental pela valorização e pelo reconhecimento dos direitos das trabalhadoras domésticas no Brasil, além de importante militante na luta antirracista. Sua vida, seu pensamento e seu legado são retomados nesta exposição, com entrada gratuita.
A mostra reúne aproximadamente 160 itens, entre fotografias, matérias de imprensa, vídeos e outros documentos. Apresenta também obras de cerca de 40 artistas, como Maria Auxiliadora, Rosana Paulino, Walter Firmo, Djanira, Dyana Santos, Silvana Marcelina, Dayane Tropicaos, Mulambö, Gê Viana, Manuela Navas, Emicida e Arjan Martins, incluindo trabalhos feitos especialmente para a mostra. A exposição ocupa o 6º andar do IMS Paulista, tendo obras presentes também no 5º andar e em outros espaços do centro cultural. A curadoria é da artista e educadora Renata Sampaio e da historiadora Raquel Barreto, com assistência do museólogo Phelipe Rezende.
Na abertura (16/5), às 11h, haverá um debate com a equipe de curadoria, e, às 17h, uma performance da artista Mariana Maia, intitulada Lavar a roupa suja da História. No dia seguinte, 17/5, às 15h, a banda Ngá, liderada pelo músico Allan Abbadia, e a cantora Izzy Gordon se apresentam no térreo do centro cultural, em um show inspirado nos bailes que Laudelina promovia.
Trajetória marcada pela militância
Nascida em Poços de Caldas (MG) em 1904, Laudelina iniciou sua militância jovem, em uma cidade onde a comunidade negra enfrentava dificuldades para acessar espaços públicos e culturais. Em Poços, trabalhou como empregada doméstica para famílias da elite local, como os Moreira Salles e os Junqueiras. Em 1922, partiu para São Paulo e, posteriormente, em 1924, para Santos. Na década de 1930, envolveu-se cada vez mais na militância política, fundando a Associação Beneficente das Trabalhadoras Domésticas de Santos, em 1936, mesmo ano em que atuou no Partido Comunista. De 1942 a 1945, integrou a Organização Feminina Auxiliar de Guerra, apoiando os brasileiros que lutavam na Segunda Guerra Mundial.
Na década de 1950, passou a morar em Campinas, onde fundou, em 1961, a Associação das Empregadas Domésticas de Campinas. Durante sua trajetória, também integrou a Frente Negra Brasileira, a maior organização negra do século XX, e se ligou ao Partido dos Trabalhadores. Laudelina faleceu em 1991, 22 anos antes da Emenda Constitucional 72, mais conhecida como PEC das Domésticas, que equiparou para as trabalhadoras direitos atribuídos aos trabalhadores regidos pelo regime CLT.
Em depoimento à pesquisadora Elisabete Aparecida Pinto, cuja dissertação de mestrado foi referência fundamental para a exposição, Laudelina comenta que as trabalhadoras domésticas demoraram a ser consideradas enquanto categoria sob a alegação de que “não traziam economia para o país”, no que ela rebate: “Nós trazemos a economia, eles saem para trabalhar, principalmente a classe média, eles têm que trabalhar fora e então passam a escravizar a empregada doméstica”.
Núcleos da exposição
A exposição no IMS é dividida em sete núcleos. O primeiro retoma a história social do trabalho doméstico no Brasil, evidenciando sua origem no sistema escravocrata e as permanências na sociedade atual. Em diálogo, são exibidas obras de artistas que exerceram o trabalho doméstico, como as pintoras Maria Auxiliadora e Madalena dos Santos Reinbolt.
Na seção seguinte, são exibidos documentos, fotos e matérias de imprensa que evidenciam a atuação política de Laudelina, com a fundação das associações de trabalhadoras domésticas. Também é abordada a sua atuação como voluntária na Defesa Passiva Antiaérea e na Organização Feminina Auxiliar de Guerra, durante a Segunda Guerra Mundial, com a exibição de uma farda utilizada por Laudelina e das condecorações que ela recebeu no período, sendo os únicos itens pessoais da ativista presentes na mostra. Em diálogo, são apresentados trabalhos de Arthur Bispo do Rosário e Januário Garcia e do Zumví Arquivo Afro Fotográfico, que também está em cartaz com uma retrospectiva no IMS.
Outro destaque é o núcleo dedicado aos bailes organizados por Laudelina. Aos 16 anos, quando ainda morava em Poços de Caldas, ela fundou o Clube 13 de Maio, uma associação recreativa que organizava festas, proporcionando espaço de lazer para jovens negros que eram impedidos de frequentar os bailes brancos da cidade. Essa prática de organizar eventos, enquanto forma de mobilização social, marcou todo o restante de sua vida, com o Baile Pérola Negra, o Salão Campineiro dos Amigos das Belas Artes e o fomento à Banda Musical dos Homens de Cor, em Campinas.
A exposição apresenta fotografias, convites e reportagens sobre os bailes, além de obras das artistas Rainha Favelada, que cria um vestido de festa em homenagem a esse universo, e Mitti Mendonça, que recria uma das fotografias encontradas na pesquisa, ambas comissionadas para a mostra.
As curadoras ressaltam a organização desses eventos como uma faceta importante da atuação política da ativista: “Laudelina compreendeu a importância da festa, do lazer, tanto na vida cotidiana como na militância. Por isso, quando se torna sindicalista, transforma os bailes em uma política de promoção da celebração da beleza, da autoestima e da alegria negra. Para Laudelina, era importante ocupar todos os espaços que as pessoas brancas ocupavam em pé de igualdade, ter direito a tudo que elas também possuíam, inclusive o luxo.”
Obras comissionadas e trabalhos espalhados pelo centro cultural
Além dos trabalhos de Mitti Mendonça e da Rainha Favelada, são exibidas outras obras feitas especialmente para a exposição. Um dos destaques é o trabalho da artista mineira Dyana Santos, que encerra a mostra. A instalação é composta por uma cadeira de balanço, com elementos que remetem ao universo de Laudelina e ao trabalho doméstico. A cadeira, que é uma obra interativa, faz uma ode ao lazer e ao descanso de todas as trabalhadoras domésticas.
A mostra ocupará também outros espaços do centro cultural. No quinto andar, serão exibidas as obras Toda doméstica tem um pouco de Dandara, de Dayane Tropicaos, e Supernanny Brasil, de Alberto Pereira. Na entrada da exposição, estará o trabalho Não sou seu capacho, de Carolina Neves Raphael. Estatísticas sobre o trabalho doméstico no Brasil também estarão presentes nas paredes e nos corredores do centro cultural.
Legado e gerações futuras
Antes de falecer, em 1991, Laudelina deixou sua residência para usos e frutos do Sindicato das Trabalhadoras Domésticas, fundado por ela em Campinas. Seu objetivo era que a organização não deixasse de existir por falta de uma sede, luta enfrentada por ela durante muitos anos. A casa permanece sendo a sede do sindicato. Em Campinas, além do sindicato, também está em atividade a Casa Laudelina.
Esse legado da ativista é reverenciado na exposição, que traz ainda vídeos e entrevistas com depoimentos de sindicalistas e militantes que atuaram concomitantemente com Laudelina. Em cartaz até 22 de novembro, a mostra convida o público a refletir sobre o tema do trabalho doméstico no Brasil e as vidas e histórias de quem exerce essa função, como afirma a curadoria: “Nesta exposição, nos baseamos na trajetória de Laudelina, mas também na possibilidade de, ao contar sua história, homenagear todas as pessoas que exercem esse labor até hoje. Ao utilizarmos a arte para prestarmos esse tributo, reivindicamos também uma revisão histórica de quem faz e pra quem é a arte no Brasil. Assim, os artistas presentes nesta exposição são, em sua maioria, pessoas que tiveram histórias familiares ligadas ao trabalho doméstico e sua produção artística direta ou indiretamente refletem e discutem a questão.”
Lista de artistas participantes da exposição
Agrade Camiz
Alberto Pereira
André Vargas
Andrea Lalli
Arcasi
Arjan Martins
Armando Vianna
Arthur Bispo do Rosário
Carolina Neves Raphael
Dayane Tropicaos
Djanira
Dyana Santos
Emicida
Fabiana Oliveira
Gabe Samuel Alves
Gê Viana
Glória Nogueira
Héber Bezerra
Heitor dos Prazeres
Januário Garcia
Jean-Baptiste Debret
Jefferson Medeiros
Joel Zito Araújo
Josi
Kika Carvalho
Larissa de Souza
Lázaro Roberto (Zumví Arquivo Afro Fotográfico)
Luiza Leão
Madalena Santos Reinbolt
Manuela Navas
Maria Auxiliadora
Mariana Maia
Mariane Lima
Mario de Oliveira
Mitti Mendonça
Mulambö
Rainha Favelada
Rosana Paulino
Sabrina Savani
Sidney Amaral
Silvana Marcelina
Walter Firmo
Publicação
A mostra será acompanhada por uma publicação, que estará à venda em breve no centro cultural e na loja online do IMS. O livro traz fotografias, documentos e imagens das obras exibidas na exposição. Também publica textos da curadoria e artigos de Elisabete Aparecida Pinto, Phelipe Rezende, Joel Zito Araújo, Juliana Teixeira e Erica Giesbrecht, que ampliam os debates sobre o trabalho doméstico no Brasil, além da exposição.
Service
Exposição Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello
Abertura: 16 de maio
Visitação: Até 22 de novembro
6o andar | IMS Paulista
Free entry
Debate de abertura com Raquel Barreto, Renata Sampaio e Phelipe Rezende
16 de maio, sábado, às 11h
Cinema | 3° andar do IMS Paulista
Entrada gratuita, com distribuição de senhas a partir das 10h. Limite de uma senha por pessoa.
Performance Lavar a roupa suja da História, de Mariana Maia
16 de maio, sábado, às 17h
Térreo do IMS Paulista
Free entry
Show Ngá convida Izzy Gordon
17 de maio, domingo, às 15h
Térreo do IMS Paulista
Free entry
IMS Paulista | Avenida Paulista, 2424. São Paulo
Horário de funcionamento: Terça a domingo e feriados (exceto segundas), das 10h às 20h.