Exposição individual "bauci: a cidade e os olhos", de Érica Magalhães
Exhibition

Exposição individual "bauci: a cidade e os olhos", de Érica Magalhães

Exhibition

  • Nome: Exposição individual "bauci: a cidade e os olhos", de Érica Magalhães
  • Abertura: 08 de agosto 2026
  • Visitação: até 23 de setembro 2206

Local

  • Local: Aura Galeria
  • Online Event: No
  • Endereço: Rua da Consolação, 2767, Jd. Paulista – São Paulo, SP

bauci: a cidade e os olhos


érica magalhães



arqueologias do corpo escultórico

tatiana sampaio ferraz


A memória do meu primeiro encontro com a obra de Érica Magalhães é uma imagem arqueológica. Ela remete à aparição de fragmentos de porcelanas antigas incrustadas nas paredes deterioradas do Edifício IAPETC (ex-INSS), em que desde 2018 funciona a Galeria Reocupa, da Ocupação 9 de Julho, em São Paulo. Ao visitar o ateliê da artista em junho de 2026 para um encontro sobre o seu processo artístico e conhecer de perto o que vinha preparando para a exposição individual na Aura, me reencontrei com essas memórias de um artefato em ruína, as quais desejei perseguir, no fluxo conceitual e poético de sua obra, para a escrita deste pequeno texto.


De volta para casa, ao buscar recompor nossas conversas no ateliê, me pareceu que o método mais adequado para uma aproximação da obra da artista é mesmo arqueológico (à semelhança do reposicionamento da figura do historiador proposto por Georges Didi-Huberman), a fim de interrogar as memórias impuras que emergem do objeto. Naquela manhã, escavamos inúmeras camadas sobre as peças em gestação – conversamos sobre seus desenhos projetuais, seus ensaios, seus protótipos, os moldes, os garimpos em antiquários e vendedores ambulantes… mas também sobre sua infância, sua passagem farmacêutica, mudanças de vida, o Rio de Janeiro, o ateliê na UERJ, o peso, a escultura (e seus desafios), a pandemia, feminismos, o corpo trans… até chegar na Barra Funda e no conjunto de obras para a exposição.


Considero que uma arte pujante é aquela que permite derivar a experiência e a reflexão em diversas camadas. No caso de Érica, naveguei por muitos pensamentos depois da visita ao ateliê - Vânia Carneiro de Carvalho, Richard Serra, Jean Baudrillard, Andrea Soto, Didi-Huberman, Jean-Marie Schaeffer, Heloisa Teixeira, Cristina Salgado, Paul Preciado -, coloquei-os em choque, como a imagem de um redemoinho no rio (Soto), buscando construir sentidos por montagem. Em meio a múltiplas camadas que constituem as obras da artista, ressalto três estratos que delas emergiram: a materialidade (a porcelana e o concreto), o peso (e a entropia do conjunto) e as derivações culturais produzidas na relação entre ambos.


As obras da exposição são feitas com dois materiais, a porcelana e o concreto, cujos processos de produção se assemelham: de uma mistura líquida inicial passam a uma materialidade sólida. Porém, apesar da rigidez de ambos, eles convivem em tensão, um sobre o outro, na iminência da escultura colapsar. Esse estado de apreensão criado com delicadeza pela artista é milimetricamente calculado no conjunto concreto-porcelana-concreto, exigindo um conhecimento empírico dos materiais, testados exaustivamente no ateliê, onde Érica desenvolve prototipagens iniciadas desde o mestrado na UERJ (orientada por Cristina Salgado, que por sua vez foi orientada por Heloisa Teixeira, num legado feminista geracional), e onde confecciona habilmente moldes para os cubos em concreto e caixas para transportar suas obras. A entropia do conjunto - em geral, com seu eixo de gravidade ligeiramente deslocado - expõe a aparente fragilidade do corpo-porcelana, comprimido pela rudeza do material da construção civil. 


Cabe notar que a artista não lança mão de qualquer porcelana, mas de aparelhos de chá e café (xícaras, pires, pratos, bules…), garimpados inicialmente em camelôs de rua no Rio de Janeiro (os “arqueólogos do contemporâneo”, tal como nomeia a artista) e depois em antiquários paulistanos. As peças em estilo rococó, cheias de volutas nas alças e detalhes dourados, estampam cenas idílicas de um cotidiano idealizado, inspiradas nas fêtes galantes de Jean-Antoine Watteau, e nos reportam a um corpo social aristocrático em ruína (ou seria o corpo em tensão da própria artista?). Segundo Vânia de Carvalho, esses objetos chegaram ao Brasil no séc. XIX, e alimentaram uma aristocracia oitocentista, demarcando os papéis de gênero dentro daquela sociedade - à mulher foi relegada a ornamentação da casa, da qual fazem parte os artefatos decorativos e os aparelhos de chá para receber as visitas.


Um olhar arqueológico sobre os materiais e objetos empregados e aglutinados por Érica, assim, nos ajuda a percorrer suas obras para além de aspectos compositivos e aparências formais; ele abre caminho para extrairmos suas derivações culturais (ou o que Vladimir Tatlin chamou de “a cultura dos materiais"; ou ainda, o que Rosalind Krauss nomeou como “a curiosidade de sua produção” na obra duchampiana), e perseguir os múltiplos estratos do corpo escultórico. Poderíamos, enfim, olhar para “Anjo exterminador" , uma de suas poucas obras intituladas, em que a fragilidade do corpo-porcelana- florido é simetricamente tensionada por suas alças concretadas de modo a estendê-las lateralmente, como as asas abertas de um anjo, o qual está ao mesmo tempo impedido de voar. O aprisionamento da figura angelical nos coloca, desse modo, no lugar de um corpo trans, subjugado a todo tempo pelos engessamentos sociais, à beira de colapsar.


Service

érica magalhães

bauci: a cidade e os olhos


texto curatorial

tatiana ferraz


abertura: 08 de agosto, 14h – 17h [opening: august 8, 2–5 pm]

período expositivo: 08.08 – 23.09.2026 [exhibition period: aug 08 - sep 23]


rua da consolação, 2767

jd. paulista, são paulo, sp

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