Exposição individual "Ismael Nery: Armadilha moderna"
Exhibition
- Nome: Exposição individual "Ismael Nery: Armadilha moderna"
- Abertura: 05 de setembro 2026
- Visitação: até 31 de janeiro 2027
Local
- Local: Pinacoteca de São Paulo
- Online Event: No
- Endereço: Edifício Pina Luz | 1º andar - Praça da Luz, 2, São Paulo - SP
PINACOTECA DE SÃO PAULO APRESENTA GRANDE EXPOSIÇÃO DEDICADA À OBRA DE ISMAEL NERY
A mostra ocupa sete salas no 1º andar da Pina Luz e revisita a produção de uma das figuras mais singulares do modernismo brasileiro, avessa a nacionalismos e em busca da eternidade
A Pinacoteca de São Paulo, museu da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, apresenta a partir de 5 de setembro a exposição “Ismael Nery: Armadilha moderna”, dedicada ao trabalho de Ismael Nery (1900–1f934), pintor, desenhista, arquiteto, decorador, cenógrafo e poeta. Ocupando as sete salas de exposição temporária do primeiro andar do edifício Pina Luz e com curadoria de Yuri Quevedo, a mostra investiga a trajetória de um dos artistas mais inquietantes do modernismo brasileiro.
Embora frequentemente apresentado como uma figura à margem do projeto nacionalista associado ao modernismo no Brasil, Nery não esteve alheio às questões de seu tempo. Apropriou-se de linguagens como a ilustração, o cubismo e o surrealismo, alterando-as a partir de suas próprias inquietações. Em pinturas, desenhos e poemas, o corpo tornou-se o lugar onde ele investigou a instabilidade da identidade, a fusão entre os gêneros, a corrupção da matéria e o desejo religioso de superar os limites do espaço e do tempo.
A mostra reúne cerca de 230 obras, entre desenhos, pinturas, retratos, autorretratos e composições com figuras humanas sensuais, muitas vezes andróginas, algumas ameaçadoras, que operam na fronteira entre o afeto e a violência, o desejo carnal e o trauma da finitude.
“Somos atraídos pela figura de um pintor isolado e atormentado, distante dos debates do modernismo brasileiro. A morte anunciada, os corpos mutilados, a religiosidade, a fusão entre masculino e feminino e o desejo de destruir a própria produção parecem ajustar-se com tal perfeição que vida e obra passam a explicar uma à outra”, explica Yuri Quevedo, curador da Pinacoteca e responsável pela exposição.
Com a morte precoce de Nery em 1934, sua produção permaneceu restrita a coleções privadas e ao círculo de amigos próximos durante décadas, sumindo de museus, escolas e revisões críticas. O reconhecimento crítico perante o público geral ocorreu somente a partir de 1965, com a inclusão de um núcleo de seus trabalhos na Sala Especial de Surrealismo e Arte Fantástica da 8ª Bienal de São Paulo.
Desde sempre compreendido como uma das vozes mais singulares da arte brasileira, distante de seus colegas, e próximo dos contemporâneos, Nery tem sua trajetória revista pela Pinacoteca de São Paulo em uma mostra panorâmica que apresenta suas contradições, sua densidade teórica e a radicalidade de suas invenções.
A construção de um pensamento à margem do cânone
Nascido em Belém do Pará, Ismael Nery se mudou para o Rio de Janeiro com a família aos nove anos de idade. O menino teve sua infância profundamente marcada pelo ambiente letrado e multifacetado de sua linhagem. As memórias da Amazônia, marcadas pelo sacerdócio teológico de seu tio-avô cônego, a clínica patológica do pai médico e os saberes de sua avó de descendência indígena, alimentaram uma sensibilidade que recusava explicações cartesianas para o mundo.
Formado como aluno livre pela Escola Nacional de Belas Artes e com passagens pela Académie Julian, em Paris, Nery assimilou as referências da história da arte ocidental e das vanguardas para dar forma, nos anos 1920, a uma espécie de doutrina oral que batiza de "Essencialismo".
Sua filosofia fundamentava-se no desprendimento das noções de tempo e espaço, buscando na criação o desdobramento do "eu" e a revelação de uma verdade imutável situada por trás das formas efêmeras da matéria. Essa busca traduziu-se no recorrente tema da androginia e da duplicidade. Em suas telas, corpos desprovidos de gênero definido, figuras calvas e duplos espelhados se fundem em um abraço sensual ou melancólico.
Exemplo central desse procedimento é a obra Dois irmãos (1927), na qual a face do artista e a de sua esposa, a escritora e poeta Adalgisa Nery (1905–1980), aparecem sobrepostas e portadoras dos mesmos traços anatômicos, sugerindo manifestações complementares de um único organismo espiritual.
Em outras obras, Nery desestrutura a anatomia das figuras humanas – expondo suas vísceras para depois reconstituí-las enquanto unidade. Em obras como Visão Interna – Agonia (1931) e Eternidade (1931), o corpo surge aberto, visceral e fragmentado: as entranhas humanas articulam-se com a paisagem e com a terra, convertendo o sofrimento em meditação sobre a mortalidade e a eternidade.
A mostra também enfatiza a teia de relações afetivas e intelectuais que permitiu à obra de Nery sobreviver. No catálogo, um dos ensaios aborda o casamento do pintor com Adalgisa. Muito além da posição passiva de musa retratada compulsivamente em telas e desenhos, Adalgisa integrou ativamente o estilo de vida estetizado do casal e, após a morte do marido, construiu uma carreira como poeta, romancista, colunista de imprensa e deputada.
Outro elemento histórico em foco foi a relação com intelectuais e artistas, como Mário Pedrosa e Alberto Guignard, e em especial com o poeta Murilo Mendes (1901–1975). Nery, que encarava a arte como processo iniciático e de pesquisa espiritual, costumava descartar ou abandonar seus desenhos e telas após o término. Foi Mendes quem resgatou, catalogou e preservou a maior parte do acervo do amigo, recusando-se, inclusive, a cumprir o pedido feito pelo artista no leito de morte para que sua produção fosse totalmente destruída.
Destaque
A exposição “Ismael Nery: Armadilha moderna” da Pinacoteca traz destaques de seu próprio acervo, como Dois irmãos (1927), João Batista (c. 1928-1929), Figuras em azul (c.1920) e Autorretrato satânico (1925). Outras obras de destaque são Composição de mulher (1929), Perspectiva abstrata (sem data), Três figuras (1924) e Autorretrato Rio/Paris (1927).
“Ismael Nery: Armadilha moderna” tem realização da Pinacoteca de São Paulo, APAC (Associação Pinacoteca Arte e Cultura), Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo e Ministério da Cultura, além de patrocínio de Bradesco e Vivo, na categoria Master, e Martinelli Advogados, na categoria Prata.
Sobre o Artista
Ismael Nery (Belém, PA, 1900 – Rio de Janeiro, RJ, 1934) foi pintor, desenhista, arquiteto, cenógrafo, ilustrador e poeta. Ingressou na Escola Nacional de Belas Artes em 1917 e complementou seus estudos na Académie Julian, em Paris, em 1920. Em suas viagens à Europa, entrou em contato com expoentes do surrealismo e do cubismo, como André Breton, Marcel Noll e Marc Chagall, desenvolvendo, contudo, uma poética própria pautada pelo Essencialismo. Autor de uma vasta produção gráfica e pictórica focada na figuração humana, na anatomia, na androginia e na retratística, faleceu precocemente aos 33 anos em decorrência de complicações da tuberculose. Sua obra figura em importantes coleções públicas brasileiras e em acervos particulares de relevância nacional, como o da Pinacoteca de São Paulo.
Sobre a Pinacoteca de São Paulo
A Pinacoteca de São Paulo é um museu de artes visuais com ênfase na produção brasileira do século XIX até a contemporaneidade e em diálogo com as culturas do mundo. Museu de arte mais antigo da cidade, fundado em 1905 pelo Governo do Estado de São Paulo, vem realizando mostras de sua renomada coleção de arte brasileira e exposições temporárias de artistas nacionais e internacionais em seus três edifícios, a Pina Luz, a Pina Estação e a Pina Contemporânea. A Pinacoteca também elabora e apresenta projetos públicos multidisciplinares, além de abrigar um programa educativo abrangente e inclusivo. B3, a bolsa do Brasil, é Mantenedora da Pinacoteca de São Paulo.
Serviço
Pinacoteca de São Paulo
Edifício Pina Luz | 1º andar
De quarta a segunda, das 10h às 18h (entrada até 17h)
R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia-entrada), ingresso único com acesso aos três edifícios - válido somente para o dia marcado no ingresso
Gratuito aos sábados
2º Domingo do mês – entrada gratuita - Gratuidade Mantenedora B3