Exposição individual "Nada duro o bastante para quebrar", de Maria Alice Salgado
Exhibition

Exposição individual "Nada duro o bastante para quebrar", de Maria Alice Salgado

Exhibition

  • Nome: Exposição individual "Nada duro o bastante para quebrar", de Maria Alice Salgado
  • Abertura: 26 de janeiro 2026
  • Visitação: até 28 de fevereiro 2026

Local

  • Local: Travessa Dona Paula
  • Online Event: No
  • Endereço: Travessa Dona Paula, 29, Higienópolis – São Paulo, SP

Sardenberg inaugura novo espaço na Travessa Dona Paula com individual de Maria Alice Salgado



A galeria Sardenberg inaugura seu novo espaço, na casa 29 da Travessa Dona Paula, com Nada duro o bastante para quebrar, da artista carioca Maria Alice Salgado, em 24 de janeiro. Em sua primeira individual em uma galeria — e estreia em São Paulo —, ela exibe esculturas em barro que ocupam o chão como um conjunto de presenças: formas biomórficas que se aproximam, se encostam, se acumulam e parecem suspensas num tempo próprio, entre o adormecer ou o despertar. Ricardo Sardenberg assina o texto que acompanha a exposição.


Se no senso comum a cerâmica tende ao acabamento e ao brilho, aqui ela se afirma por outro caminho: queimada e propositalmente deixada sem o pudor do esmalte ou do verniz, a superfície aparece como pele seca e porosa, oferecida ao olhar. Nas palavras de Sardenberg, trata-se menos de uma coleção de objetos do que de um convite a uma experiência de "continuidade e entrega", em que repetição, contato e desejo organizam uma coreografia silenciosa no espaço expositivo.


O trabalho da artista com argila foi aprofundado a partir de 2020. Trabalhando em casa, e convivendo com a presença do filho pequeno, ela transformou limitações cotidianas em método. "Quando comecei a trabalhar em casa, a questão do esmalte virou uma restrição", conta. "O esmalte é um pó muito fino, e com bebê em casa, além da queima ser tóxica, eu fui criando essas restrições — meio impostas — e isso me levou a pensar em texturas, em formas, nas cores do barro mesmo." Essa decisão também puxou uma pesquisa técnica: testar argilas diferentes, aproximar encolhimentos, construir paredes espessas e sustentar intervenções na superfície. "Eu produzia e as deixava em uma prateleira. Mas, quando as coloquei no chão, entendi que elas deixaram de ser apenas objetos inanimados e ganharam esse caráter de 'seres'."


As esculturas são feitas, em grande parte, por uma técnica de construção por camadas (acordelado), em que a forma se ergue lentamente e a decisão sobre a textura chega depois — quando a peça já existe como corpo. "Eu só penso na textura depois da peça pronta", diz. "Cada furo é um... vou furando um a um, e um empurra o anterior. Eles vão se conectando, não tem repetição: vou mudando a direção, mudando ferramenta, e as decisões vão vindo depois." O resultado são volumes ambíguos, com uma pulsação obsessiva, feitos de centenas de pequenas unidades que lembram células, sementes, escamas. 


O título da exposição vem do poema O Jardim de Ediacara (tradução livre de The Garden of Ediacara, de Alan Shapiro), que inspirou a mostra no Rio de Janeiro que originou a exposição paulistana, que também traz peças inéditas.


No texto, o período geológico de Ediacara é evocado como um tempo anterior à dureza das estruturas e à lógica predatória — "mais sacos porosos do que corpos", "sem nada duro o bastante para quebrar".


Para Maria Alice, a frase encosta numa qualidade central do seu trabalho: "eles estão ali descansando... ao mesmo tempo que são rígidos, pesados, alguns até rachados, também têm essa posição mole, molenga. Tem uma suspensão — como se algo tivesse acontecido ou fosse acontecer." Essa suspensão convive com uma tensão interna: algo entre o erótico e o geológico, entre o organismo e a pedra.


Nada duro o bastante para quebrar é, também, uma continuidade direta da primeira individual da artista, apresentada no Rio, em setembro de 2025, e se reorganiza agora no novo espaço da Sardenberg — um espaço que, durante a montagem, ainda guarda algo de canteiro e transição. A própria artista observa esse encontro: "a casa não está pronta, está no meio do caminho da obra... e talvez as peças passem um pouco isso também: a coisa do barro cru, do toque seco, poroso... elas estão totalmente queimadas, mas sem essa finalização da cerâmica como a gente costuma ver." A exposição, assim, assume o inacabado não como falta, mas como linguagem: um estado em que matéria, arquitetura e tempo se contaminam.


Ao deslocar as peças do pedestal para o chão, Maria Alice também encontra seu "lugar certo" de apresentação. "Eu olhava para elas chapadas na prateleira... e quando botei no chão, comecei a gostar. Eu falei: 'isso estava faltando: botar elas no lugar certo'." Entre proximidade e recuo, curva do corpo do visitante e detalhe da superfície, a mostra se constrói como um campo de afetos: nada monumental se impõe, mas tudo pede aproximação.


A abertura da exposição marca, também, a inauguração de mais um espaço da galeria Sardenberg na Travessa Dona Paula — em uma casa da década de 1920, no número 29 da rua. O imóvel de número 134, do outro lado da via, continua operando como sede galeria. Em seu estado atual, o imóvel foi apenas demolido internamente e permanece em condição de ruína, antes do início da reforma definitiva — prevista para acontecer daqui a cerca de seis meses. Enquanto isso, a galeria passa usar aquele espaço como uma espécie de anexo, assumindo o canteiro como linguagem: ao longo de todo o semestre, a programação se desenrola nesse ambiente "em processo", tal como está, tensionando a ideia de acabamento e tornando a própria transformação do lugar parte da experiência de visita. 


Nada duro o bastante para quebrar fica em cartaz até 28 de fevereiro.


SOBRE SARDENBERG E TRAVESSA DONA PAULA

Estabelecida no mercado de arte contemporânea do país, a Sardenberg —antigo Projeto Vênus— fomenta a cena artística de São Paulo por meio de colaborações e de um programa de exposição de artistas em plena atividade, muitos dos quais são representados pela galeria. 


O time atual conta com artistas que trabalham com mídias variadas como pintura, desenho, performance, escultura e instalações, como Allan Gandhi, Adriana Coppio, Adriane Gallinari, Camile Sproesser, Daniel Barreto, Darks Miranda, Felipe Barsuglia, Flora Rebollo, Fraus, Giulia Puntel, Janaina Wagner, Luciana Maas, Luiz Queiroz, Mirela Cabral, Pinky Wainer, Rafa Bqueer e Yan Copelli. 


A galeria foi fundada por Ricardo Sardenberg em 2020, às vésperas da pandemia de Covid-19. Em 2021, chegou à Travessa Dona Paula, em 2021, marcando o início da nova fase do local. Escondida entre a rua da Consolação e a avenida Angélica, na região central de São Paulo, a Travessa Dona Paula é uma antiga vila operária que Ricardo ajudou a transformar em polo de arte contemporânea ao convidar outras instituições para integrar a vizinhança. 


Hoje, a Travessa Dona Paula abriga espaços de arte como galerias comerciais, coleções particulares, espaços de artistas, editoras, residências artísticas e ateliês. Estão lá galerias como A Gentil Carioca, Zielinsky, Sardenberg, além da coleção moraes-barbosa (coleção particular), Ybytu (programa de residência artística), Ateliê397 (espaço independente de arte), Desapê (projeto dedicado a livros de artista e espaço expositivo), o selo Celeste (revista, selo de livros de arte e crítica e residência artístico-editorial) e a editora Piscina Pública Edições e o novo programa de residência artística casa onze. Em dezembro de 25, abriram as portas a Marli Matsumoto Arte Contemporânea Anexo e a galeria Pórtico. A Sardenberg inaugura mais um espaço na vila em janeiro de 26.


SOBRE RICARDO SARDENBERG

Formou-se em História da Arte e Fotografia pela New York University, em 1994. Curador independente, editor e crítico de arte, foi um dos idealizadores do Inhotim (Brumadinho, MG), fundou a editora Cobogó, foi o VIP Representative no Brasil da feira Art Basel e escreveu o livro Arte Contemporânea no século XXI: 10 Brasileiros no Circuito Internacional (ed. Capivara). Em 2020, fundou o Projeto Vênus —galeria de arte contemporânea em São Paulo, que atualmente leva o seu nome.


Service

Maria Alice Salgado: Nada duro o bastante para quebrar


Abertura:  26 jan., sábado, 15h às 18h

Visitação: 26 jan.–28 fev.


Free


SARDENBERG


Travessa Dona Paula, 29, Higienópolis


Terça a sexta, das 10h às 19h; sábados, das 11h às 17h

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