Exposição individual "TORÓ", de Niura Bellavinha
Exhibition
- Nome: Exposição individual "TORÓ", de Niura Bellavinha
- Abertura: 28 de março 2026
- Visitação: até 07 de junho 2026
Local
- Local: Centro Cultural do Patrimônio Paço Imperial
- Online Event: No
- Endereço: Praça XV de Novembro, 48, Centro – Rio de Janeiro, RJ
“Toró”, de Niura Bellavinha
Em exposição inédita, Bellavinha transforma o Paço Imperial em campo de relação entre pintura, matéria e memória, no contexto das celebrações dos 40 anos da instituição como centro cultural
Em uma produção marcada pela experimentação, a artista trabalha com pigmentos naturais, rejeitos minerais, pedra, tecido e poeira de meteoritos
Toró é mais que uma chuva. De origem tupi, associada à ideia de água que jorra, a palavra nomeia uma força que transborda, rompe e transforma. É esse sentido de explosão natural, de matéria em movimento, que estrutura a exposição individual de Niura Bellavinha, que será inaugurada no dia 28 de março de 2026, no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, integrando as celebrações dos 40 anos da instituição como centro cultural, com curadoria de Marcus Lontra, Rafael Peixoto e Viviane Matesco. Concebida em diálogo direto com a arquitetura e a história do edifício, Toró propõe uma experiência imersiva em que pintura, escultura e obras instalativas operam como campos de transbordamento simbólico, material e sensível.
Como gesto inaugural da exposição, algumas janelas da fachada do Paço recebem uma intervenção em que telas brancas deixam escorrer tinta vermelha, ativando o edifício como corpo e superfície de inscrição. A ação estabelece um elo imediato entre a obra da artista e a memória histórica do lugar, onde, no final do século XVIII, foram tomadas decisões centrais para a história colonial brasileira, incluindo a condenação de Tiradentes. Sem recorrer à ilustração ou ao didatismo, a intervenção funciona como um disparador poético que conecta passado e presente, arquitetura e matéria pictórica. “Intitulei esta intervenção de Chorare Pitangas, expressão em tupi-guarani que significa ‘chorar lágrimas de sangue’”, revela Bellavinha.
“Toró nos interessa como um estado, não como uma imagem. É uma noção de pressão e intensidade que atravessa a obra da Niura e encontra, no Paço Imperial, um campo de ressonância histórica e simbólica”, explicam os curadores.
A pintura como processo
Nas obras de Niura, a pintura deixa de ser apenas superfície para se afirmar como matéria em ação. Escorrimentos, velaturas, pulverizações, impregnações e infiltrações fazem da cor um elemento instável, em permanente deslocamento. Vermelhos intensos convivem com verdes e azuis de aparência aquosa, ampliando o repertório cromático da artista e rearticulando associações entre sangue, água, minério e paisagem.
“Minha pintura é inspirada pela música serial, pelo cinema e pela fotografia. Da música vem a ideia de uma estrutura em variação constante; do cinema, o princípio da montagem, feito de edições sucessivas até que algo se estabilize; da fotografia, o corte, a luz e a relação sutil entre as cores. Trabalho a partir da instabilidade, deixando que erros e aparições conduzam o processo, e gosto de operar com os restos, com as camadas anteriores. Minha pintura é leve como a poeira. Busco um ponto de equilíbrio por meio de uma sucessão de situações e regiões instáveis”, afirma Bellavinha.
A exposição – que marca os 35 anos de carreira da artista – ocupa o terreiro e o terreirinho do Paço, reunindo um conjunto expressivo de trabalhos inéditos em espaços historicamente ligados às áreas de serviço, circulação e abastecimento do prédio. A escolha desses ambientes reforça a dimensão relacional do projeto, construído a partir das camadas simbólicas do lugar.
“A exposição se estrutura a partir da fricção entre tempos distintos. A arquitetura do Paço não funciona como cenário, mas como uma presença que tensiona a leitura das obras e desloca a experiência do visitante”, pontua a curadoria.
A dimensão material da obra é central. Niura trabalha com pigmentos naturais, terras, rejeitos minerais e poeira de meteoritos. Em algumas esculturas, pedras são atravessadas por linhas de seda que pertenciam à mãe da artista, criando uma relação direta entre memória íntima e território. As fitas evocam veios de minério e veias do corpo, aproximando mineração e anatomia, exploração da terra e ferida corporal. Aqui, o corpo surge como metáfora do território e o território, como extensão do corpo.
A obra-título
Entre os trabalhos apresentados, destaca-se Toró (2015-2016), tríptico que dá título à exposição. A obra reúne pigmentos e matérias como moldavita (cristais), azurita, spirulina e zircão, compondo uma superfície de caráter aquoso e atmosférico. Em tons de verde e azul, o trabalho evoca a ideia de chuva e dialoga com referências da história da pintura, em especial com paisagens e procedimentos associados aos mestres William Turner, Paul Cézanne e Alberto da Veiga Guignard, que atravessam a pesquisa de Bellavinha.
A expografia foi pensada como um percurso progressivo, que organiza o espaço a partir de ritmos, escalas e intensidades. Em alguns momentos, o público é convidado a atravessar fisicamente as obras, penetrando planos pictóricos e percebendo variações de luz, transparência e densidade material.
Um projeto em circulação
Embora dialogue com questões recorrentes na trajetória de Bellavinha, como a relação com a história colonial, a matéria e a espiritualidade da cor, Toró não se apresenta como uma retrospectiva. Ao contrário, a mostra enfatiza o presente da produção da artista e sua capacidade de se reconfigurar a partir do encontro com cada espaço, inscrevendo-se em um projeto mais amplo de circulação que se transforma a cada contexto expositivo.
Toró integra um programa de itinerância desenvolvido pela artista e iniciado em 2024/2025 com a exposição apresentada no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. Em 2026, o projeto chega ao Paço Imperial, no Rio de Janeiro, assumindo uma configuração inédita em diálogo com a arquitetura e a história do edifício. Estão previstas ainda apresentações em outras capitais brasileiras, como São Paulo, Porto Alegre e Belém. Ao final do percurso, será lançado o livro Niura, publicação que consolida esse programa de itinerância, reunindo imagens e textos sobre os atravessamentos entre obra, espaço e tempo ao longo das diferentes exposições apresentadas.
A experiência do público começa ainda do lado de fora. As janelas ativadas na fachada anunciam a exposição como um acontecimento que extrapola o espaço interno e convoca o olhar do passante. Uma vez no interior do Paço, o visitante é convidado a desacelerar, aproximar-se das obras e percorrer um conjunto de proposições que exigem tempo, atenção e abertura sensorial.
Toró afirma a pintura como força viva, capaz de transbordar suportes, incidir sobre a arquitetura e reativar a memória histórica no presente. Ao colocar matéria, cor e espaço em relação, Niura constrói uma exposição que não se fecha em significados únicos, mas se oferece como campo de experiência atravessado por tensões entre delicadeza e violência, transparência e peso, história e agora.
About the artist
Nascida em Belo Horizonte, Niura Bellavinha (1962), é bacharel em Artes pela Escola Guignard, com especialização em pintura, escultura e litografia. Também estudou com Amílcar de Castro, desde os 14 anos, no curso livre antes de ingressar na Escola Guignard, aos 16. Aos 19 anos, é convidada por Amílcar para participar de um núcleo de avançado de artes e, em simultâneo, participa da Casa Litográfica, a convite de Lótus Lobo.
Vive e trabalha entre Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Já residiu em outras cidades no Brasil e no exterior. Em seu vasto currículo, destacam-se inúmeros prêmios e mostras internacionais, como 1ª e 4ª Biwako Biennale (2010 / 2014), Omihachimman, Japão; 1ª 9, 5ª e 10ª Bienal do Mercosul, (1997/ 2005/ 2015) Porto Alegre BR; Bienal Internacional de São Paulo, (1985 e 1994); e Bienal de Cuenca (1995), no Equador.
Participou de diversos salões nacionais de artes, recebendo o Grande Prêmio no Salão Nacional de Artes 1990, (IBAC/ FUNARTE/ MAP). Realizou mostras individuais a convite de Instituições brasileiras como Oi Futuro Flamengo e Belo Horizonte; CCBB-Rio de Janeiro; Centro Cultural São Paulo; Museu de Arte da Pampulha (BH); Museu de Arte Moderna (RJ); Escola de Artes Visuais do Parque Lage (RJ); Paço Imperial (RJ) e Palácio das Artes (SP).
A partir do início da década de 1990 até 2024, realizou diversas mostras institucionais e em galerias comerciais no Brasil e exterior, dentre elas na Danielian (RJ), AM (BH), Izabel Pinheiro (SP), Brisa (Lisboa), Millan (SP), Anna Maria Niemeyer (RJ), Nara Roesler (SP), Manoel Macedo (MG), Graça Brandão (Lisboa) e Espace_L (Genebra).
Em 2016, com o curador e crítico de arte Paulo Herkenhoff, lançou o livro “Niura Bellavinha”, pela Editora Cobogó, que conta a sua trajetória.
SERVICE
TORÓ, de Niura Bellavinha
Curadoria: Marcus Lontra, Rafael Peixoto e Viviane Matesco
Abertura: 28 de março de 2026
Encerramento: 07 de junho de 2026
Local: Centro Cultural do Patrimônio Paço Imperial
End: Praça XV de Novembro, 48 - Centro
Rio de Janeiro | RJ
Site: https://amigosdopacoimperial.org.br/
Instagram: @pacoimperial_rj
Horários de funcionamento: Terça a domingo e feriados, das 12h às 18h
Entrada franca | Classificação livre